Continuação do livro Elvis e EU Elvis And Me CAPITULO 27
Elvis ficou tão desolado com Clambake que seu peso subiu dos 75 quilos habituais para noventa à altura em que se apresentou para o trabalho. O estúdio ordenou-lhe que emagrecesse... e depressa. Ele começou a tomar pílulas de dieta, a única maneira pela qual podia reprimir o apetite e emagrecer em tão curto prazo. O Coronel conseguiu apaziguar os chefões do estúdio.
Na manhã em que devia começar as filmagens ele acordou meio grogue e foi para o banheiro, enquanto eu continuava na cama. Ouvi um baque alto e depois os seus gritos:
— Mas que merda! Quem pôs este fio aqui?
Pulei da cama e corri para o banheiro, indagando:
— O que aconteceu?
Elvis estava caído no chão, esfregando a cabeça.
— Tropecei no fio da televisão. Estava tão escuro aqui que não vi nada. Ajude-me a levantar... tenho de ir para a cama.
Embora ele estivesse tonto, sem equilíbrio, conseguimos chegar à cama. Sentindo um caroço em sua cabeça, liguei no mesmo instante para Joe Esposito, que chamou o Coronel e um médico. Poucos minutos depois o quarto estava cheio de gente — o médico, sua enfermeira, o Coronel sugeriu que todos, menos ele, esperassem lá fora, enquanto o médico fazia o diagnóstico.
Poucas horas depois foi anunciado que Elvis tinha uma grave concussão cerebral e que o início das filmagens estava adiado por prazo indeterminado. O Coronel resolveu aproveitar o acidente para cortar algumas das outras atividades de Elvis. Queria que ele abandonasse o envolvimento com as filosofias esotéricas, que em sua opinião eram irrelevantes para a carreira de Elvis e prejudiciais a seu pensamento objetivo.
A busca espiritual de Elvis não passara desapercebida. Todas as pessoas, do círculo íntimo à turma das filmagens, estavam conscientes de uma mudança em sua personalidade, ao longo dos anos em que ele vinha estudando com Larry Geller. A personalidade antes vibrante de Elvis se tornara agora passiva, ele era cada vez mais introvertido. As brincadeiras travessas que outrora fazia no estúdio haviam sido suplantadas por suas buscas diligentes. Elvis passava cada momento de folga absorvido nos livros que levava para o estúdio.
A pessoa mais preocupada com essa mudança era o Coronel Parker. Ele achava que Larry hipnotizara Elvis, cuja carreira de ator e cantor estava sofrendo em conseqüência. A "concussão" de Elvis era uma oportunidade para acabar com a "exploração da alma".
Poucos dias depois do acidente ele reuniu Elvis e os rapazes. Disse que eles estavam sobrecarregando Elvis com problemas demais, comentando:
— Lidar com uma pessoa é uma coisa, mas cuidar de onze e mais os próprios problemas pessoais é suficiente para fazer qualquer homem vergar.
O Coronel acrescentou que haveria algumas mudanças, da redução da folha de pagamento à determinação de que todos os problemas fossem encaminhados a Joe Esposito, em vez de Elvis. Sua mensagem básica foi a seguinte: Deixem Elvis em paz.
— Elvis deve se concentrar em sua carreira. É um artista, não um ombro amigo para os outros chorarem. Deixem-no em paz, para que ele possa realizar o seu trabalho. O Coronel olhou para Larry; era evidente que ali estava o principal alvo de sua mensagem. — Não quero que ele leia mais livros e se envolva com coisas que deixam sua mente confusa.
Elvis permaneceu sentado a escutar como um menino obediente, parecendo abatido, sem dizer nada. Não assumiu a defesa de Larry; ninguém o fez. Mais tarde, o Coronel disse a Elvis que deveria afastar Larry de sua vida, que Larry usava alguma técnica para manipular o pensamento dele. Elvis alegou que isso não acontecia; estava realmente interessado em suas leituras.
ELVIS E EU

— Você não estaria nesse estado se sua cabeça estivesse em ordem! — gritou o Coronel. — Posso lhe garantir, Elvis: Larry está interferindo em sua mente!
Fiquei surpresa ao observar como Elvis escutava atentamente. Ele sempre discutira com qualquer um, até mesmo comigo, que se atrevesse a falar alguma coisa contra Larry. Mas agora Elvis prometeu ao Coronel que não passaria mais tempo do que o necessário com Larry. E cumpriu a promessa. Só usava Larry para arrumar seus cabelos e nunca mais tornou a ficar a sós com ele.
Depois dessa reunião, os rapazes passaram a ser abertamente hostis com Larry, até mesmo Elvis fazia alguns comentários mordazes a seu respeito.
Larry era uma espécie de pária e acabou indo embora. O Coronel Parker ficou exultante. Recuperava seu pupilo. Elvis estava pronto para uma grande mudança, e já era tempo que ocorresse. O Coronel disse que seus filmes estavam indo muito mal e que ele precisava revitalizar sua carreira. Estaria casando em breve e antes disso tinha de repor sua carreira e sua vida no caminho certo.
Depois que Larry partiu, Elvis guardou muitos dos seus livros. Eu disse a ele que me sentia contente por isso, pois aqueles livros estavam literalmente nos destruindo. Estávamos noivos, íamos casar.
— Você se sentiria ainda melhor se eu me livrasse de todos os livros? — perguntou Elvis.
Acenei com a cabeça afirmativamente. Naquele dia, às três horas da madrugada, Elvis e eu fizemos uma pilha grande, e fomos jogar tudo num poço abandonado, por trás de Graceland. Despejamos gasolina por cima, Elvis riscou um fósforo e jogou-o, despedindo-se do passado.

ELVIS E EU
CONTINUA,,,,,,,,,,
Continuação do livro Elvis e EU Elvis And Me CAPITULO 26
Uma noite, pouco antes do natal de 1966, Elvis bateu de leve na minha porta e disse :
— Sattnin, preciso falar com você.
Tínhamos uma senha. Provocante, eu lhe disse que teria de pronunciá-la antes que eu o deixasse entrar. Ele riu e disse "Olhos de Fogo" — o apelido que eu lhe dava quando estava furioso.
Elvis estava com seu sorriso infantil e as mãos nas costas.
— Sente-se e feche os olhos Sattnin.
Obedeci. Quando abri os olhos, deparei com Elvis ajoelhado à minha frente, estendendo uma caixinha de veludo preto.
— Sattnin... — murmurou ele.
Abri a caixa para descobrir o mais lindo anel de diamante que já vira. Era de três e meio quilates, cercado por diamantes menores, destacáveis — Eu poderia usá-los separadamente.
— Vamos casar — anunciou Elvis. — Você vai ser minha. Eu lhe disse que saberia quando o momento chegasse. Pois o momento chegou.
Ele enfiou o anel em meu dedo. Eu estava emocionada de mais para falar; foi o momento mais lindo e romântico da minha vida. Nosso amor não seria mais um segredo. Eu poderia viajar abertamente como a Sra. Elvis Presley, sem receio de inspirar alguma manchete escandalosa. E o melhor de tudo, os anos de angústias e medos de perdê-lo para uma das muitas mulheres que disputavam o meu lugar estavam terminados.
Elvis estava ansioso em mostrar o anel ao seu pai e a Vovó, informando-os que estávamos oficialmente noivos. Nem mesmo tive a chance de me vestir. Levando em consideração nosso estilo de vida irregular, ficar noiva no meu quarto de vestir e mostrar o lindo anel de diamante num roupão, não parecia absolutamente estranho.
Eu queria partilhar a grande notícia com meus pais, mas Elvis sugeriu que esperássemos até a nossa volta para Los Angeles, poucas semanas depois. Poderíamos então anunciar pessoalmente; eles mereciam essa consideração. Naquela noite ligamos para meus pais e os convidamos para passar um fim de semana conosco em Bel Air.
Elvis estava mais nervoso do que em qualquer outra ocasião anterior no dia em que eles deveriam chegar. Olhava a todo instante pela janela, à espera do carro. Estava ansioso em lhes mostrar o anel e quase o fez no instante mesmo em que passaram pela porta, mas eu consegui manter a mão nas costas até que todos sentamos. Estendi então a mão e disse:
— Só queríamos mostrar isso a vocês.
— E o que isso significa? — Perguntou papai, olhando para minha mão.
— É um anel de noivado, senhor — informou Elvis.
As lágrimas afloraram aos olhos de mamãe.
— Oh, Deus, é lindo! — murmurou ela.
Os dois estavam extasiados. Adoramos informá-los que finalmente ocorria o que esperavam há tanto tempo e pelo que muito haviam rezado. Ressaltamos a importância de manter o noivado em segredo, pedindo que mantivessem um sigilo absoluto, mesmo para a família, já que os garotos poderiam comentar na escola e a notícia se espalharia depressa. Queríamos um casamento íntimo, não um evento de celebridade. Meus pais concordaram com todos os planos. Não podiam estar mais felizes e durante todo o fim de semana, se mostraram radiantes de prazer.
Durante os cinco anos que eu vivia com Elvis raramente lhes permitira discutir o meu casamento. A possibilidade da família ser magoada era a preocupação maior de meus pais. Agora, não tinham mais de se preocupar se haviam tomado a decisão acertada ao deixarem que a filha tão jovem saísse de casa. Sei que o Coronel Parker pedira a Elvis que analisasse o nosso relacionamento e decidisse o que julgava melhor. A atitude de Elvis em relação ao casamento era que se tratava de algo definitivo. Embora ele fosse monógamo por natureza, adorava as opções.
ELVIS E EU

Apesar disso, não estava disposto a me largar. Curiosamente, depois da conversa com o Coronel Parker, Elvis não levou muito tempo para chegar à conclusão de que era o momento certo. A decisão foi sua e somente sua.
Em meio ao maior excitamento, fizemos o resto dos planos para a cerimônia de casamento. A primeira sugestão foi de que eu providenciasse o vestido imediatamente; se a notícia vazasse, poderíamos casar de um momento para outro. Mas minha busca por um vestido de noiva acabou se prolongando por meses. Disfarçada por óculos e um chapéu, visitei todas as butiques exclusivas de Menphis a Los Angeles; apesar do disfarce, era paranóica bastante para pensar que todos me reconheciam. Cheguei a conversar com diversas costureiras sobre modelos, mas não confiava o bastante nelas para dizer que seria para um vestido de noiva. Finalmente alguém indicou uma loja pouco conhecida de Los Angeles. Charlie acompanhou-me, apresentando-se como meu noivo. Foi ali que encontrei meu vestido de noiva. Não era extravagante, nada tinha de excepcional — era simples e para mim maravilhoso.
Saí da cabine para mostrá-lo a Charlie. Ao meu ver, Charlie ficou com os olhos cheios de lágrimas e murmurou:
— Você esta linda, Beau. Ele vai ficar muito orgulhoso.
Era o mês de fevereiro, depois de nosso noivado. Estávamos passando de carro perto de Horn Lake, Mississipi, quando avistamos um lindo rancho — 160 acres de colinas ondulantes. Um rebanho de gado Santa Gertrudes pastava. Havia uma ponte sobre um pequeno lago, um estábulo com baias para cavalos e uma casa encantadora, numa posição privilegiada. Estava à venda.
Era a casa dos meus sonhos. Apaixonei-me no mesmo instante e comecei a imaginar Elvis e Eu vivendo ali sozinhos. Era bastante pequena para eu poder cuidar pessoalmente. Faria toda limpeza e tomaria conta de Elvis, levando seu desjejum na cama de manhã, enquanto ele contemplava Rising Sun pastando numa colina.
Pensei naquele rancho como um meio maravilhoso de escaparmos de Graceland de vez em quando. Imaginei nós dois a selarmos nossos cavalos, partindo a galope, de manhã bem cedo ou ao entardecer. As imagens eram apenas de nós dois, sem o séquito.
Estávamos decididos a comprar o rancho, sem prever o fardo excessivo que se tornaria. Elvis queria o lugar tanto quanto eu, embora Vernon alegasse que meio milhão de dólares era um preço absurdo. Ele achava que o proprietário poderia se contentar com menos e tentou nos persuadir que financeiramente não era um bom negócio. Os filmes de Elvis continuavam a perder popularidade e as vendas de seus discos ainda estavam caindo. Ele ganhava em média um milhão de dólares por filme e o dinheiro saía tão depressa quanto entrava. Contudo, Elvis tomara sua decisão. Queria o rancho de qualquer maneira.
Com a maior relutância, Vernon foi ao banco para tomar o dinheiro emprestado, oferecendo Graceland como garantia. Compramos o rancho inteiro, inclusive o gado e equipamentos, batizamos o racho de Círculo G, por Graceland.
Tínhamos dezoito cavalos nessa ocasião e todos foram transferidos para o rancho, mas Elvis tinha idéias sobre a maneira como queria que todos nós vivêssemos. Como a casa do rancho era pequena, ele comprou trailers e distribuiu um para cada família. Vernon se esforçou com a maior diligência para obter permissão da prefeitura para fazer a ligação de água e gás no rancho.
— Faça qualquer coisa que seja necessária — autorizou-o Elvis.
Não demorou muito para que estivessem sendo despejados toneladas de cimento, que seriam as fundações de concreto dos trailers. Não parou por aí. Elvis comprou pickups El Caminos ou Rancheros para cada família, até mesmo uma para o bombeiro e outra para o pintor. Gastou pelo menos cem mil dólares só nos veículos.
Elvis continuou a gastar dinheiro a rodo. Alarmado, Vernon literalmente suplicou-lhe que parasse, mas Elvis disse:
— Estou me divertindo, papai, pela primeira vez em muito tempo.
Tenho um hobby, uma coisa pela qual me sinto satisfeito por acordar de manhã.
ELVIS E EU

Era comum vê-lo circulando pela propriedade, batendo em portas, acordando todo mundo, indo verificar como estavam os cavalos ao amanhecer. Estava na maior animação e havia ocasiões em que nem mesmo queria fazer uma pausa para comer — andava com um pão debaixo do braço, a fim de aliviar as pontadas de fome que por acaso surgissem. Adorava fazer compras no porão da Sears, levando para o rancho e exibindo orgulhoso ferramentas, facas, lanternas e outros equipamentos. Naquela primavera de 1967 passamos muito tempo lá, às vezes ficando até por duas semanas, sem retornar a Graceland. Aos domingos fazíamos piqueniques e todas as mulheres levavam alguma comida simples, como galinha frita, biscoitos e saladas. Andávamos a cavalo, promovíamos concursos de tiro ao prato, vasculhávamos o lago à procura de tartarugas e cobras. Havia muita diversão, risos e uma grande camaradagem. Mas uma vez, nossa vida era coletiva, com todos participando.
Mesmo em minha pequena casa havia convidados para o jantar todas as noites, geralmente os solteiros, como Lamar e Charlie. Cozinhar para Elvis era fácil: bastava eu pegar qualquer coisa que tivéssemos para comer e deixar quase queimado. Mas havia tantos outros para alimentar que muitas vezes sua prima Patsy vinha me ajudar. Os casados jantavam em suas casas e depois vinham para a sobremesa, passando o resto da noite em nossa companhia.
Havia sempre muitas sessões musicais. Elvis, Lamar Fike e Charlie Hodge se reuniam no meio da sala e cantavam sua músicas prediletas. Quando estavam indo muito bem, Elvis gritava:
— Puxa, está é quente! Mais uma vez!
Às vezes ele passava uma hora repetindo um final, porque tinha o "pique ...os ingredientes de uma obra prima". Assim como o círculo íntimo nos seguiu até o rancho, o mesmo aconteceu com os curiosos. As pessoas que se reuniam em Graceland começaram a aparecer no Círculo G. Não demorou muito para quer dezenas de pessoas, dia e noite, se espalhassem ao longo da cerca. Como nossa casa ficava à plena vista da estrada, Elvis mandou erguer um muro de três metros de altura. Mas nada detinha as pessoas, que passaram a subir em carros e nos telhados das casas próximas.
Não podíamos escapar e tínhamos receio de sair pelo portão. O sonho estava pouco a pouco se transformando num pesadelo. As esposas queriam voltar para suas casas e as crianças queriam voltar para seus amigos e escolas.
Elvis gostava quando todos estavam juntos — em termos que somente ele especificava — e sentia-se contrariado quando queriam partir. — Comprei uma porção de coisas e agora todo mundo quer ir embora — queixou-se ele.
Ressentia-se com as deserções; dera tudo a seus empregados e parecia que eles não apreciavam. Elvis descobriu que alguns dos regulares estavam vendendo os veículos que lhes dera de presente. Precisavam mais de dinheiro do que de El Caminos. Elvis nunca foi capaz de conceder os problemas financeiros que a maioria das pessoas enfrenta e jamais compreendeu que os regulares casados tinham de levar em consideração suas responsabilidades com as esposas e filhos.
Apesar de tudo, porém, ele adorava dar e partilhar, embora sua conta bancária estivesse de maneira drástica. Um hobby dispendioso, o rancho já lhe custara quase um milhão de dólares, criando um problema sério de fluxo de caixa. Em telefonemas diários, Vernon suplicava ao Coronel que providenciasse algum trabalho, a fim de desviar Elvis de sua orgia de gastos. O Coronel logo arrumou outro filme, Clambake. Elvis leu o roteiro, mais uma história de praia e biquíne, e detestou, Vernon convenceu-o de que não tinha opção:
— Precisamos do dinheiro, filho.
E não havia mesmo alternativa. Mas Elvis ainda protestou:
— Não quero sair daqui, Cilla . Não quero deixar você, o rancho, Sun. Nenhum filho da puta vai me manter longe por muito tempo. Isso inclui papai, o Coronel, o estúdio... todo mundo. A conspiração para me impedir de gastar dinheiro não vai dar certo.
Se eu precisar de dinheiro, irei a Nashville e gravarei algumas canções. Será muito melhor do que fazer esses filmes nojentos. Nem Elvis nem Vernon jamais consideraram a possibilidade de transformar o Círculo G numa operação lucrativa. Todos os elementos para um negócio bem-sucedido estavam ali — tratores, pastagens e o melhor gado Santa
Gertrudes, criado no Rancho Rockefeller. Mas ele vendeu o gado, depois que Vernon advertiu-o de que a manutenção era muito cara. Com alguma assessoria financeira profissional, Elvis poderia realizar negócios legítimos, que seriam benéficos a ele e seu hobby.
Infelizmente, Vernon e Elvis eram desconfiados demais em negócios que exigiam assessoria financeira. Vernon operava por puro instinto, recusando qualquer sugestão de aproveitar benefícios fiscais, algo que considerava complicado demais para sequer considerar. Deixava que a Receita Federal calculasse os impostos de Elvis e assim agia desde que houve um levantamento meticuloso quando Elvis estava no exército, calculando-se que ele devia oitenta mil dólares em impostos atrasados. O próprio Elvis recomendava:
— Vamos pagar os impostos que eles estão cobrando, papai. Ganho bastante dinheiro. Farei um milhão de dólares e entregarei a metade. Foi durante a filmagem de Clambake que expirou o contrato de locação da casa de Perugia Way, em Los Angeles. Tínhamos de procurar uma nova casa. Depois da experiência no Círculo G, estávamos preocupados em proteger nossa privacidade. Descobrimos uma casa isolada, aninhada numa colina em Bel Air, pensamos que finalmente encontráramos um santuário. Mas ali também não teríamos privacidade.
Não demorou muito para que centenas de pessoas começassem a subir para a estrada por cima da casa, observando tudo lá embaixo, através de binóculos e teleobjetivas. Não podíamos mais usar a piscina, o pátio ou o jardim sem posar para uma audiência enorme, inclusive repórteres e fotógrafos, que passavam o dia lá em cima à espera de fotos reveladoras ou furos.
A situação escapava ao controle de vez em quando. Uma noite, quando Elvis fora a Mout Washington para conversar com Daya Mata, saí para uma visita a Joan Esposito. Notei um carro com os faróis altos me seguindo. Era uma das fãs mais ardorosas de Elvis, uma mulher de quase cem quilos, acompanhada por outra e por um homem. Sentindo-me insegura, resolvi voltar para casa. Ela continuou a me seguir. Ao passar pelo portão, eu estava furiosa.
ELVIS E EU

Observando-a subir para a estrada sem saída por cima da casa, fui em seu encalço e parei o carro atravessado, bloqueando-a. A mulher estava de pé ao lado do carro quando saltei e perguntei:
— O que está fazendo aqui? Por que está me seguindo? — Ela permaneceu em silêncio e insisti:
— Por que está me seguindo?
— Sua puta! — gritou ela.
Enfurecida, cerrei o punho e acertei um soco em sua cara. Ela caiu no chão, atordoada. Pulei em cima dela e nós duas nos engalfinhamos, berrando e puxando os cabelos uma da outra. Compreendi que precisava de ajuda. Voltei correndo ao portão da casa e gritei pelo interfone:
— Alguém... Sonny, Jerry... venha me ajudar!
Poucos segundos depois Elvis saiu correndo da casa, acompanhado pelos rapazes.
— O que foi, Baby?
Quando expliquei o que acontecera, apontando para o local, Elvis saiu em disparada. Vendo-o se aproximar, a garota e seus amigos se trancaram no carro. Elvis estava furioso, começou a balançar o carro nas molas. Socou o pára-brisa, ameaçando matar todo mundo se encostassem a mão em mim de novo.
— Eu sou menor! Eu sou menor! — gritava a garota. — Vou processá-lo se tocar em mim!
Foi preciso muita persuasão de Sonny de que ela poderia acarretar mais problema do que valia a pena para que Elvis a deixasse ir embora.
ELVIS E EU
CONTINUA,,,,,,,,,,
Continuação do livro Elvis e EU Elvis And Me CAPITULO 25
Em 1966 a longa busca de Elvis pelas respostas para o mistério da vida envolveu a todos nós em estranhos jogos, que ele adorava criar. Ele ia para o quintal dos fundos da casa em Bel Air e ficava olhando" os planetas se deslocarem pelo céu", por longos períodos, na escuridão da madrugada. Elvis estava convencido — e quase nos convenceu também — que havia ondas de energia tão poderosas que faziam as estrelas deslizarem pelo universo. Durante horas todos contemplávamos, maravilhados, interrogando um ao outro sobre o que víamos, com medo de formular a única indagação apropriada: "Será possível?"
A imaginação de Elvis atingiu o auge quando estávamos todos no jardim, olhando para o Bel Air Coutry Club, cujo gramado estava sendo regado por um sistema de aspersão automático.
— Estão vendo? — perguntou Elvis, olhando atentamente para o terreno.
— Vendo o quê? — indaguei, sem perceber coisa alguma.
— Os anjos.
— Anjos?
Olhei para o gramado. Queria muito acreditar em Elvis, assim como os outros. E todos concordamos que também estávamos vendo. Como num transe, Elvis continuou a olhar para a água por mais alguns minutos. Depois, começou a se adiantar, murmurando:
— Tenho de ir. Vocês devem ficar aqui. Eles estão querendo me dizer alguma coisa.
Ele encaminhou-se para o campo de golfe, no encalço de sua visão. Sonny segui-o, a fim de garantir sua segurança, enquanto os demais continuaram onde estavam, aturdidos. Em outras ocasiões Elvis nos fazia olhar por horas a fio para um teto branco, tentando divisar os rostos que ele dizia que estava fazendo aparecer ali.
ali.
Depois de sua morte, alguns de nós conversamos sobre aqueles tempos, aventando a possibilidade de um colapso nervoso — e depois descartando-a. Era mais provável que fosse apenas um jogo que ele inventara por tédio e depressão, no momento mais baixo de sua carreira. Elvis tomava as pílulas para dormir a fim de escapar; enquanto resistia ao efeito, criava as suas "imagens" — seus exercícios místicos.
A ocasião em que vi Elvis mais feliz foi quando desenvolveu uma paixão por cavalos. Tudo começou quando eu comentei que gostaria de ter um cavalo. Sempre adorara cavalos, desde a infância, e Graceland tinha um lindo estábulo antigo nos fundos, onde Vernon costumava guardar móveis velhos. Estava equipado com uma sala de arreios, palheiro e diversas baias. Cerca de duas semanas depois eu estavas em meu quarto de vestir quando Elvis, que se ausentara por algumas horas, voltou e bateu na porta.
— Sattnin, quero que você desça agora pois tenho uma coisa para lhe mostrar.
Os olhos dele brilhavam. Levou-me pela porta dos fundos, tapando-me os olhos com a mão. Quando ele a retirou, deparei com a coisa mais linda que já vira — um cavalo preto, de meias brancas.
— O nome dele deve ser Dominó! — exclamei, afagando o fogoso animal de quatro anos. — De quem é?
— É seu — respondeu Elvis!, sorrindo. — Vi um garoto montando-o e perguntei se queria me vender. Pude imaginar você montada nele.
— Jura que é mesmo meu? — gritei, pulando de alegria e abraçando Elvis.
Eu queria montar Dominó imediatamente e foi o que fiz.
— Vá com calma — advertiu Elvis. — Não quero que se machuque. Ele ficou me observando com uma expressão preocupada, enquanto eu dava uma volta pelo campo e depois me encaminhava para o quarto de Vovó.
— Dodger! Dodger! — gritei. — Olhe só o que eu ganhei! Meu cavalo! Não é lindo? Elvis acaba de comprar para mim!
ELVIS E EU

— Santo Deus! — exclamou Dodger. — Saia de cima dessa coisa, Priscilla! Vai acabar se matando! Vou brigar com aquele menino por dar um presente assim a você! Não pode montar essa criatura!
— Não se preocupe, Vovó! — gritei alegre, antes de me afastar a galope. — Posso controlá-lo muito bem!
Dominó era um cavalo fogoso. Quando eu o montava, ao final da tarde, sentia-me em meu mundo particular. Era uma libertação maravilhosa. Muitas vezes Elvis me observava de sua janela no segundo andar e eu lhe gritava:
— Desça para passear comigo!
Elvis não montava muito bem na ocasião. Só tivera experiência de equitação em alguns de seus filmes e jamais gostara. Sentia-se um pouco intimidado com os animais grandes; mesmo assim, aceitou meu convite e experimentou montar Dominó. Adorou e declarou:
— Também quero um cavalo e vai ser um palomino dourado.
Jerry Schilling encontrou Rising Sun num estábulo próximo. Era o mais lindo palomino que se podia imaginar, grande e vigoroso. Fora treinado para shows e nunca vi um animal que exigisse tanta atenção e tanto a apreciasse como Rising Sun. Não podia haver qualquer dúvida de que era o cavalo para Elvis.
Mas ele permaneceu cético e mandou que Jerry testasse o cavalo primeiro.
— Ele é lindo, cara, um cavalo sensacional. Mas dê uma volta nele antes, Jerry.
Jerry tinha pouca — se é que alguma — experiência de montagem e ficou apavorado com a idéia. Mesmo assim, montou Rising Sun, parecendo completamente deslocado.
O cavalo disparou como uma bala, com Jerry mal conseguindo se manter na sela. O magnífico animal parecia estar estudando Elvis, tanto quanto Elvis o estudava. Correu de volta, seguindo direto para o lugar em que Elvis estava parado.
— Puxe-o de volta! — gritou Elvis.
— Estou tentando, E, estou tentando! — berrou Jerry em resposta.
Elvis foi conquistado. Agora, todos desenvolvemos a paixão por cavalos. Cavalgávamos todas as tardes, entrando pela noite. Como acontecia com tudo o que apreciava, Elvis queria que todos aderissem à diversão. Assim, começou a nossa busca de cavalos para Billy e Jo Smith, Joe Esposito, Jerry Schilling, Lamar, Charlie, Red, Sonny, Richard...todos, enfim. Compramos as melhores selas, mantas, freios, rédeas, baldes de forragem. Comprávamos qualquer coisa que se relacionasse com um cavalo.
Todas as tardes saíamos a passear, à vista de cerca de duzentas fãs locais, ao longo das cercas. Trajado ao estilo do Velho Oeste, Elvis oferecia um espetáculo e tanto. Descia a galope pela encosta comprida na frente de Graceland e voltava, mostrando-se para as fãs. Disputava corridas com os outros, sob os aplausos das fãs.
O espetáculo tornou-se ainda mais sensacional quando Elvis comprou seu Tennesse Walker, um zaino premiado, chamado Bear, que montava em grande estilo. Ele e Bear ofereciam um show sensacional; se fosse cobrada entrada, provavelmente daria a mesma renda de seu show em Las Vegas. Seus outros hobbies — os Karts e carrinhos — eram apenas máquinas. Aquele era o primeiro hobbie que envolvia uma criatura viva.
Os cavalos reagiam ao seu amor e era comovente observar a afeição de Elvis pelos animais. Foi um momento de grande intimidade para todos nós, pois tínhamos algo em comum. Mas depois que Elvis demonstrou sua generosidade, presenteando a todos com cavalos, Graceland mostrou que não era bastante grande para o rebanho. Ainda não sabíamos, mas estávamos prestes a nos tornar rancheiros.

ELVIS E EU
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Continuação do livro Elvis e EU Elvis And Me CAPITULO 24
Elvis não era um homem de moderação. Quer fosse motocicletas, carros cavalos, parques de diversões, rinques de patinação, sexo ou até mesmo comer o mesmo jantar dia após dia, se ele gostava, entregava-se de corpo e alma.
Uma noite dei-lhe de presente um autorama, com carrinhos de controle remoto. Poucas semanas depois ele acrescentara uma sala inteira à casa, com uma enorme pista profissional. Brincava ali noite após noite, só voltando muito tarde para seu quarto, até que acabou cansando e o anexo foi convertido numa sala de troféus, ocupada por seus discos de ouro e prêmios diversos.
À medida que a fascinação de Elvis pelos fenômenos ocultos e metafísicos aumentou, Larry levou-o ao Centro de Autocompreensão, em Mount Washington, onde ele conheceu Daya Mata, a diretora. Era uma mulher atraente, com uma semelhança extraordinária com Gladys Presley. Elvis ficou cativado por sua serenidade e presença espiritual. Ela simbolizava tudo o que ele procurava.
Elvis fez várias viagens a Mount Washington, no alto das colinas de Hollywood, para sessões com Daya Mata, na esperança de alcançar o Kriya, que é a forma mais elevada de meditação na auto-compreensão. Sentia-se especialmente atraído por Paramahansa Yogananda, o falecido fundador do centro e autor de A Autobiografia de um Ioga.
Leu que Yogananda ficara num caixão aberto no Cemitério Forest Lawn por mais de vinte dias sem apresentar qualquer sinal de decomposição. Era esse tipo de estado superior de percepção que Elvis esperava alcançar.
Por mais relaxado e pacífico que ele estivesse ao deixar a área sossegada do centro, havia uma coisa a que não podia resistir: uma boa briga. Voltávamos uma tarde de Mount Washington quando a limusine
passou por um posto de gasolina em que dois atendentes estavam brigando.
— Pare o carro — ordenou Elvis ao motorista.
— Alguém está em dificuldade.
Ele saltou do carro, seguido por Jerry e Sonny. Aproximou-se de um dos homens e disse:
— Se você quer brigar com alguém, estou às suas ordens.
— Ei, cara, não tenho nada contra você! — protestou o homem, mal podendo acreditar que era mesmo Elvis. — Nem mesmo estou discutindo com você!
— Se quer um motivo para brigar, então vou lhe dar um! Elvis desferiu um golpe de caratê e para sua surpresa — e de todos nós — arrancou um maço de cigarros do bolso do homem.
No nosso grupo, Elvis não se destacava pela precisão no caratê. Muito tempo depois da confusão no posto de gasolina ainda gracejávamos a respeito:
— O senhor estava ao lado de E naquele dia. O cara não soube a sorte que teve.
É claro que Elvis agira como se pudesse fazer aquilo sempre que quisesse. Depois de desferir o chute, ele se afastou com um sorriso arrogante, advertindo ao homem que não comprasse outras brigas ou aprenderia uma lição para valer.
Quando chegamos em casa, Elvis relatou o incidente, dando a impressão de que liquidara meio batalhão. E nós confirmamos a sua fantasia.
Ele estava ansioso por um filme, Harum Scarum, considerando-o a sua grande oportunidade de criar um personagem realmente interessante. Identificava seu papel com o de Rodolfo Valentino em The Sheik. Achava que tinha finalmente um papel que podia explorar. Estava convencido de que tinha uma semelhança física com Valentino, especialmente de perfil. Durante os preparativos para a produção, ele chegou um dia em casa escurecido pela maquilagem, vestindo uma calça branca de harém, um
ELVIS E EU
turbante branco na cabeça. Estava excepcionalmente bonito, muito mais do que Valentino, em minha opinião. Inclinando a cabeça, com um olhar penetrante, as narinas dilatadas, ele perguntou, enfaticamente:
— Não é impressionante como pareço com ele? Qual é a sua reação?
Ele me pegou em seus braços, ao melhor estilo de Valentino, inclinou-me, como no melhor cartaz do filme.
Noite após noite ele manteve a maquilagem e o turbante, durante o jantar e até a hora de dormir. Embora estivesse muito animado com o filme quando começaram as filmagens, no entanto, seu ânimo foi declinando a cada dia que passava. O enredo de Harum Scarum era uma piada, seu personagem não passava de um idiota, as canções que apresentava eram desastrosas. O filme tornou-se mais um desapontamento... e dos mais embaraçosos.
Ainda empenhado no filme, mas humilhado por sua mediocridade, Elvis procurava uma válvula de escape em incursões de motocicleta — onze Triumphs e uma Harley, as Triumphs para os assistentes e a Harley para o chefe. Vestidos de couro da cabeça aos pés e nos sentindo como um bando de arruaceiros dos Hell's Angels, partíamos em disparada pelos portões da mansão de Bel Air, acelerando os motores, a qualquer hora da madrugada.
Nos fins de semana fazíamos excursões às montanhas de Santa Mônica, parando pelo caminho para tomarmos refrigerantes ou cerveja. Era divertido e desenfreado. Eu gostava tanto que queria ter minha própria motocicleta. Apesar da preocupação com minha segurança, Elvis acabou me comprando, relutante, uma Honda Dream 350.
Enquanto ele estava no estúdio, eu saía sozinha às vezes, fugindo de Bel Air, Beverly Hills, Hollywood, MGM e todas as minhas preocupações.
Durante esse período, quando Elvis ainda procurava "um estado de consciência superior", experimentamos as drogas que expandiam a percepções. Experimentamos a marijuana e não gostamos muito. Sentíamo-nos cansados e grogues, com uma fome voraz.
Depois de várias excursões à geladeira — e os quilos a mais resultantes — resolvemos nos manter a distância de marijuana. Embora detestasse as drogas mais fortes, Elvis estava curioso com o LSD, querendo experimentá-lo uma vez. Quando iniciamos a experiência, providenciamos para que Sonny West permanecesse na supervisão durante todo o tempo. Lamar, Jerry, Larry, Elvis e eu sentamos à noite em torno da mesa de reunião no escritório de Elvis, no segundo andar de Graceland. Elvis e eu tomamos meio tablete. A princípio, nada aconteceu. Depois, começamos a nos fitar atentamente e a rir, pois os rostos começavam a ficar distorcidos. Fiquei absorvido pela camisa multicolorida de Elvis. Começou a aumentar, cada vez maior, até que pensei que ele ia explodir. Era fascinante, mas a sensação não me agradava. Pensei; Isso não é real, tome cuidado, está perdendo o controle. Tentei me apegar à sanidade. Todos nos concentramos em torno do aquário, no lado de fora do quarto principal, fascinados pelos peixinhos tropicais. Muito estranho — havia apenas dois ou três, mas de repente eu contemplava um oceano de peixes de cores brilhantes. Afastei-me e um momento depois descobri-me no imenso closet de Elvis, ronronando como uma gatinha, já era de manhã quando Elvis e eu descemos e saímos da casa. O orvalho criava arco-íris na névoa, rebrilhava nas árvores e no gramado. Estudamos as folhas, tentando contar cada gota de orvalho. Os veios na relva tornaram-se visíveis, respirando lentamente, em ritmo. Fomos de árvore em árvore, observando a natureza em detalhes. Foi uma experiência extraordinária. Contudo, compreendendo que era uma droga muito perigosa para se brincar, nunca mais experimentamos o LSD.
ELVIS E EU
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Continuação do livro Elvis e EU Elvis And Me CAPITULO 23
Em abril de 1964 Larry Geller foi contratado para substituir o barbeiro de Elvis, Sal Office. Não podíamos imaginar na ocasião que o novo relacionamento não apenas acarretaria uma mudança drástica em Elvis, mas também criaria tensão, ciúme e medo no grupo. Eu estava em Menphis quando ele conheceu Larry, mas soube de tudo a seu respeito através de nossas conversas telefônicas noturnas. O entusiasmo de Elvis por seu novo amigo era contagiante.
— Você não vai acreditar no cara, Sattnim — disse ele. — Larry sabe mais sobre o mundo espiritual do que todos os pregadores, padres católicos e fanáticos religiosos juntos. Temos discussões que se prolongam por horas, falando sobre os grandes mestres e o propósito da minha presença neste mundo. Estou convidando-o a ir para Graceland. Ele vai aprofundar o seu desenvolvimento espiritual.
Quando Larry e a esposa, Stevie Geller, se juntaram a nós, fiquei surpresa ao descobrir que eram jovens e atraentes. Ele era jovial e gentil. Ela era doce, tranqüila e retraída. Contudo, muitos do grupo, inclusive eu, ficaram desconfiados. Todos estávamos ameaçados pelo envolvimento de Elvis com Larry. Estava afastando-o de nós. Parecia que Elvis estava sempre apartado, lendo livros esotéricos ou absorvido em conversas com Larry sobre o plano de Deus para o universo.
Elvis descobriu que havia muitos grandes mestres além de Jesus. Havia Buda, Maomé, Moisés e outros, "escolhidos por Deus para servirem a um propósito". O que eu testemunhava agora em Elvis era o afloramento da parte de sua natureza ansiosa por respostas para todas as questões fundamentais da vida.
Ele perguntou a Larry por que, entre todas as pessoas do universo, fora escolhido para influenciar milhões de almas. Instalado nessa posição singular, como ele podia contribuir para salvar um mundo assoberbado
pela fome, doença e pobreza? E antes de mais nada, por que havia tanto sofrimento humano? E por que ele não era feliz, quando tinha mais do que qualquer um podia querer?
Achava que estava faltando alguma coisa em sua vida. Através da percepção de Larry, ele esperava encontrar o caminho que o levaria às respostas. Elvis estava ansioso que todos nós — especialmente eu — absorvêssemos o conhecimento que ele estava consumindo. Feliz em partilhar tudo, exatamente como fizera com as análises da Bíblia em Los Angeles, ele lia para nós por horas a fio, distribuindo os livros que julgava que nos interessariam. Anunciou que eu teria de acompanhá-lo na busca das respostas para o universo, a fim de que pudéssemos nos tornar perfeitas almas-irmãs. Para ajudar-me, ele deu-me vários livros, inclusive A Iniciação do Mundo, de Vera Stanley Adler.
Ele sugeriu que eu assistisse às conferências do filósofo e autor metafísico Manley P. Hall. Foi o que fiz. Achei que as conferências eram difíceis de compreender e penosas de suportar, mas consegui sobreviver, com a esperança de que "isto também vai passar".
Depois, Elvis interessou-se pelo Livro dos Números, de Cheiro, que definia as características das personalidades das pessoas de acordo com o dia do mês em que haviam nascido. A fim de descobrir quem era compatível com quem, Elvis calculou os números dos dias de nascimento de todos no grupo. Fiquei apavorada, rezando para que meu número fosse seis, sete ou oito, a fim de ser compatível com Elvis, que era um oito.
Felizmente, meu número combinava com o dele. Embora eu estivesse me esforçando para ser a alma-irmã de Elvis e sutilmente me tornasse cada vez mais consciente de mim mesma como um ser espiritual, meu coração ansiava pelas próprias tentações que ele se empenhava em dominar. Enquanto eu esperava pacientemente em Graceland por suas voltas, planejando interlúdios românticos, Elvis tentava superar as tentações do mundo e estava convencido de que passava por um período de purificação, física e espiritual. Quaisquer tentações sexuais eram contra tudo o que ele estava buscando e não desejava me trair, a garota que o esperava em casa, preparando-se para ser sua esposa.
ELVIS E EU

Elvis sentia-se culpado e confuso por sua reação natural aos avanços femininos e creio que esse era o seu maior medo no casamento. Ele me amava e queria muito ser-me fiel, mas nunca teve certeza de que poderia resistir às tentações. Era uma batalha persistente e ele chegou a um ponto em que estava convencido de que devia resistir até a mim. Uma noite, antes de deitarmos, ele disse:
— Cilla, você terá de ser muito compreensiva nas próximas semanas ou por quanto tempo mais for necessário. Sinto que devo me afastar das tentações do sexo.
— Mas por quê? E por que comigo?
Ele estava absolutamente solene.
— Temos de controlar nossos desejos, a fim de podermos nos controlar. Se pudermos controlar o sexo, então poderemos dominar todos os outros desejos.
Quando deitamos, ele tomou a sua dose habitual de pílulas para dormir, entregou a minha e depois, lutando contra a sonolência, pôs-se a ler seus livros metafísicos.
Como sua alma-irmã, eu deveria procurar as respostas tão fervorosamente quanto ele, mas não suportava ler os livros empolados que nos cercavam na cama todas as noites. De um modo geral, cinco minutos depois de abrir um eu já estava profundamente adormecida. Irritado com meu desinteresse óbvio, Elvis me acordava para partilhar uma passagem profunda. Se eu manifestasse o menor protesto, ele dizia:
— As coisas entre nós nunca darão certo, Cilla, porque você não demonstra o menor interesse por mim ou minha filosofia. — E depois, ele acrescentava, incisivo: — Há muitas mulheres por aí que gostariam de partilhar essas coisas comigo.
Confrontada com essa ameaça, eu me forçava a sentar na cama e tentava ler a passagem. As letras se embaralhavam diante de meus olhos, borradas. Eu queria partilhar com ele inspirações românticas e não religiosas. Tentava me aconchegar contra ele ao máximo possível, sentindo o calor de seu corpo. Ele me mandava sentar direito e escutar, lia outro trecho, repetindo-o várias vezes, para ter certeza de que eu aprendia o seu significado. Uma noite, perdi o controle e comecei a gritar.
— Não agüento mais! Não quero ouvir mais nada! Estou cansada de sua voz falando interminavelmente! Está me levando à loucura! Eu estava histérica, puxando os cabelos como uma mulher desvairada.
— O que você está vendo, Elvis? Vamos responda: o que está vendo?
Ele fitou-me, os olhos parcialmente fechados.
— Uma louca, uma louca delirante — respondeu, a voz meio engrolada por causa das pílulas para dormir. Fiquei de joelhos ao seu lado, gritando:
— Não, Elvis, não é uma louca, mas sim uma mulher que precisa fazer amor e se sentir desejada por seu homem. Elvis, você pode ter seus livros e a mim também. Por favor, não me faça suplicar. Juro que preciso de você e quero você.
Quando eu concluí a tirada, tudo o que podia ouvir era o som suave de música religiosa tocando no rádio. Olhei para Elvis. Ele mergulhara num sono profundo.

ELVIS E EU
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Continuação do livro Elvis e EU Elvis And Me CAPITULO 22
Elvis era um homem repleto de complexidades e contradições. Passávamos uma noite discutindo a vida espiritual e depois ele ia assistir um filme de horror. Uma noite, quando assistíamos ao clássico de horror Diabolique, Elvis inclinou-se e indagou se eu estava disposta a uma ousadia.
— Claro.
Eu não tinha a menor idéia do que ele planejava, mas a aventura sempre me atraía.
— Vou levar você a um lugar que vai deixá-la apavorada... foi o que aconteceu na primeira vez em que estive lá.
Depois que o filme terminou, ele pegou-me pela mão e fomos todos para a limusine. Elvis determinou ao motorista:
— Leve-nos ao necrotério. Tem um cara lá que toma conta do lugar. Já estive lá uma vez. Eu estava andando pelas salas, vendo os cadáveres, quando esbarramos um no outro. E nós dois ficamos apavorados.
— Está querendo dizer que vamos entrar?
— É proibido, mas posso dar um jeito.
— Está certo. Eu topo.
Sua fama era a chave-mestra. Era meio fantástico andar pelos corredores, entrar em cada sala. Era tudo silencioso, solene, mal iluminado. Eu apertava a mão de Elvis. A princípio, não queria olhar, mas Elvis garantiu que os cadáveres estavam em paz e depois da primeira olhada não seria tão ruim assim.
Vagueamos de uma sala para outra. Fiquei espantada ao descobrir como era fácil me acostumar àquela visão insólita. Era um lugar sereno, quase como se estivéssemos na igreja. Estava tudo muito bem até que olhei para uma mesa e avistei um bebê que devia ter dois ou três meses de idade. Ficamos olhando em silêncio, até que murmurei:
— Puxa, Sattnin, ele é tão pequeno, tão inocente... O que terá acontecido? Não há cicatrizes.
As lágrimas escorriam por meu rosto. Uma pausa e Elvis disse, suavemente:
— Não sei... Às vezes Deus opera de maneiras estranhas.
Acho que o bebê estava destinado a ir ao seu encontro. Seguramos a mão do bebê e Elvis disse uma oração. Poucos minutos depois encontramos o cadáver de uma mulher de meia-idade, que acabara de ser embalsamado. Desviei os olhos.
— Isso é bom para você — comentou Elvis. — Precisa ver coisas assim de vez em quando. É a verdade nua e crua...a realidade. Quando se olha para um cadáver, compreende-se que tudo é temporário, como pode acabar numa questão de minutos.
O lado espiritual de Elvis era um aspecto dominante em sua natureza. Como um garoto pequeno, criado em Tupelo, Mississipi, ele e a família freqüentavam a igreja regularmente, na Primeira Assembléia de Deus. Foi criado com a pregação do inferno que incutia o temor de Deus e a música que levava aos Portões do Paraíso.
Elvis, Vernon e Gladys integravam o coro e foi então que a música embalou pela primeira vez a sua alma. Ele era capaz de efetuar a cura espiritual: um toque de suas mãos nas minhas têmporas e a mais dolorosa dor de cabeça desaparecia.
Ele sempre mantinha a Bíblia na mesinha-de-cabeceira e a lia com freqüência. Agora, confrontando um desespero cada vez mais profundo, ele começou a ler outros livros filosóficos, à procura de respostas e orientação. Leu as obras de Kahlil Gibran. Um livro em particular, O Profeta, muito o inspirou. Também leu Sidarta, de Hermann Hesse, e A Vida Impessoal, de Joseph Benner. Tornou-se tão apaixonado por esses livros que os presenteava a amigos, colegas de profissão e fãs. Apelavam para sua natureza religiosa e ele adorava reunir as pessoas "no espírito da única força permanente
— "Deus Todo-poderoso".

ELVIS E EU
Quando a mãe Gladys, estava viva, Elvis contava com uma pessoa para lhe dar respostas, uma pessoa a quem respeitava e que constantemente o lembrava de seus valores e raízes. Era Gladys quem mantinha Elvis consciente da diferença entre o certo e o errada, os males da tentação e o perigo da vida em ritmo vertiginoso.
— Mamãe, quero você e papai em Hollywood comigo — dizia ele. — Há muitos executivos por lá, tomando decisões, gente com uma conversa suave que não posso entender.
Nos primeiros tempos, Vernon e Gladys acompanhavam Elvis na maioria de suas excursões pelo Sul e nas idas a Hollywood, quando ele fez seus primeiros filmes. Era o bom senso de Gladys que contrabalançava as inseguranças de Elvis na juventude.
Mas desde a morte de Gladys que não houvera mais limites para Elvis. Ela fora a força que o mantivera na linha.
Agora que ela não estava mais ali, Elvis vivia num conflito permanente entre sua ética pessoal e as tentações que o cercavam. Em meados dos anos sessenta ele estava sempre lendo a Bíblia em seu estúdio em Bel Air. Uma noite sentei ao seu lado, enquanto ele lia passagens com a maior veemência. À nossa frente, havia várias de suas admiradoras, usando as blusas mais decotadas e as mais curtas minissaias. Todas escutavam atentamente, discípulas extasiadas na presença de seu "senhor". O sermão estendeu-se por horas, seguindo-se uma sessão de perguntas e respostas, durante a qual as garotas disputaram sua atenção. Sentada aos pés de Elvis estava uma garota atraente e bem-dotada, com a blusa desabotoada até o umbigo. Inclinando-se sedutora, ela perguntou em voz insinuante:
— Elvis, acha que a mulher no poço era virgem?
Como eu estava ao seu lado, ele evitou se aproveitar do espetáculo que obviamente lhe era oferecido.
— É uma coisa sobre a qual terá de tirar as suas próprias conclusões, meu bem — respondeu Elvis. — Pessoalmente, acho que Jesus sentiu-se atraído por ela. Mas é apenas a minha opinião, não estou afirmando que é um fato incontestável.
Fiquei observando Elvis e as garotas conversarem, sentindo-me abalada e furiosa. Que estupidez!, pensei. Será que Elvis não percebe o que ela está fazendo? É tão óbvio! Ele aspirou fundo e indagou:
— Gosto do seu perfume, meu bem. Qual é?
— Chanel Nº 5 — respondeu ela.
Chanel Nº 5? Mas era o perfume que eu estava usando! Por que Elvis não percebia em mim? Levantei-me devagar e fui para o meu quarto de vestir, que ficava ao lado do estúdio. Determinada a atrair sua atenção, vesti a roupa que ele mais apreciava — um vestido preto bem justo que Elvis escolhera pessoalmente.
Voltei alguns minutos depois e tornei a ocupar meu lugar a seu lado, mas ele estava tão absorvido em pregar às suas devotas que ignorava totalmente a minha ausência. Para agravar a situação, Elvis também não percebeu que eu trocara de roupa.
Consegui esconder minha aflição por trás de um falso sorriso e um olhar atento, mas não pude deixar de perceber que ele reagia às garotas com uma piscadela ou um sorriso ocasionais. Fiz perguntas como elas, mas meu coração não estava nisso; sabia que todas aquelas garotas queriam tomar o meu lugar. "Não há outro jeito", pensei. "Se não sou apreciada, amada ou desejada, acabarei com tudo. Assim, será mais fácil para todos."
Levantei-me e fui para o nosso quarto. Pegando um vidro de Placidyls pela metade, idealizei um plano para criar um efeito dramático, que pela minha imaginação haveria de conquistar sua atenção. Fiquei olhando fixamente para as pílulas e refleti: E se eu sufocar até a morte? Resolvi tomar duas pílulas, para começar. Assim, poderia tomar um banho de chuveiro rápido, refazer a maquilagem, vestir a camisola mais atraente e me ajeitar dramaticamente na cama, antes de engolir o resto do vidro. Engoli as pílulas e comecei a me preparar para o fim. Em lágrimas, pensei em deixar-lhe um bilhete, escrevendo tudo o que não fora capaz de dizer. Diria como desejara que nós dois pudéssemos ficar a sós de novo, como acontecera durante as longas horas que passáramos juntos em seu quarto na Alemanha. Confessaria que tinha ciúme de qualquer mulher que atraía sua atenção e detestava as ocasiões em que havia apenas silêncio entre nós, apesar de ele alegar que tinha muitos problemas na cabeça. Diria como
temia suas explosões violentas, que me privavam da liberdade de expressão; e como gostaria que ele tentasse me compreender, enquanto eu desesperadamente tentava compreendê-lo.
Talvez ele sentisse minha falta a esta altura, pensei. Corri para a porta e encostei meu ouvido. Ouvi-o rir. Ele estava se divertindo. As garotas também. Descobri que estava cansada de tudo aquilo. Não entraria ali agora nem que ele me pedisse. Além do mais, estava exausta. Mas não estava exausta demais para lembrar como queria ser encontrada. Deitei na cama, os cabelos pretos compridos espalhados sobre os travesseiros brancos, os lábios brilhando. Em minha ingênua fantasia, Elvis abraçava meu corpo inerte e dizia o quanto me amava, beijando-me ardentemente para me fazer voltar à vida.
Forcei-me a tomar mais uma pílula e fiquei absolutamente imóvel na posição em que queria ser descoberta. Esperei pelo que pareceram horas para que o sono me dominasse. Quanto mais ouvia o riso de Elvis, mais furiosa ficava. A fúria de adrenalina estava se sobrepondo ao efeito das pílulas. E não demorou muito para que começasse a me sentir uma tola. Depois, ouvi Elvis despedir-se das garotas e encaminhar-se para a porta. Peguei o livro mais próximo e ajeitei-o ao meu lado, para dar a impressão de que estava lendo e caíra no sono. Ouvi-o entrar, aproximar-se da cama suavemente, pegar o livro. Ele sussurrou o título, O Ouvinte. Pude imaginá-lo ao sorrir, satisfeito por eu estar lendo livros filosóficos. Elvis inclinou-se por cima de mim por um instante, provavelmente pensando como eu parecia doce e como devia estar cansada para me retirar tão cedo. Ele me cobriu com um cobertor carinhosamente e tornou a se inclinar para dar um beijo em meus lábios entreabertos. Toda minha ira e ciúme se desvaneceram. Compreendi como até mesmo um pouco de sua atenção podia me fazer feliz.
ELVIS E EU

CONTINUA,,,,,,,,,,
Continuação do livro Elvis e EU Elvis And Me CAPITULO 21
Nem tudo era tão promissor quanto eu levara meus pais a acreditarem. Elvis e eu não podíamos ser realmente felizes juntos porque ele se sentia muito infeliz com sua carreira. À primeira vista, ele conseguira tudo: era o ator mais bem pago de Hollywoowd, com um contrato de três filmes por ano, e um salário fabuloso mais cinqüenta por cento dos lucros. Mas, na verdade, sua carreira brilhante perdera o lustro. Por volta de 1965 o público só tinha acesso a Elvis através dos filmes e discos. Ele não se apresentava na televisão desde o especial com Frank Sinatra em 1960 e não oferecia um concerto ao vivo desde a primavera de 1961.
As venda de seus discos indicavam que sua popularidade enorme estava declinando. Os compactos não estavam mais incluídos automaticamente entre os Dez Mais e ele não conquistava um Primeiro Lugar no long-playing desde a primavera de 1962.
Atribuía o declínio da popularidade à monotonia de seus filmes. Detestava os enredos banais e os prazos curtos para as filmagens. Mas sempre que se queixava, o Coronel lembrava que estavam ganhando milhões e que o fato de seus dois últimos filmes sérios, Flaming Star e Wild in the Coutry terem sido fracassos de bilheteria provava que os fãs queriam vê-lo apenas em musicais.
Ele poderia exigir roteiros melhores, mais substanciais, só que nunca o fez. Um dos motivos para isso era o estilo de vida suntuoso a que se acostumara. O principal motivo, porém, era sua incapacidade de resistir ao Coronel. Na vida pessoal, Elvis não hesitava em proclamar a todos que conhecia como ou o que sentia, mas quando se tratava de enfrentar o Coronel Parker, ele sempre recuava. Elvis detestava o aspecto comercial de sua carreira. Assinava um contrato sem ler.
Era um artista para quem o ato de criação era tudo. Ele e o Coronel tinham um acordo tácito: Elvis cuidava do lado artístico e o Coronel se
encarregava de toda a parte comercial. Com isso, o Coronel impunha um filme medíocre depois de outro. A posição do Coronel era simples: se tais filmes haviam sido sucesso no passado, por que mudar a tendência? Elvis também estava se tornando desiludido com sua música. Nunca tivera uma aula na vida, mas sua musicalidade era extraordinária e adorava todos os tipos de música — evangélica, ópera, blues, coutry e rock. O único tipo de música que não apreciava muito era o jazz. Durante anos Elvis permanecera no topo das listas de sucessos porque lhe fora oferecida uma boa seleção de músicas para escolher e pudera gravá-las em seu próprio estilo, à sua maneira, ainda não se decepcionara com a indústria da música.
No estúdio, Elvis trabalhava bem com as pessoas com que se sentia à vontade e sabia exatamente o som que queria. Escolhia pessoalmente os músicos e o coro; se gostava do som que faziam, sua própria voz alcançava novas culminâncias. Adorava misturar vozes e admirava a fusão de tenor e baixo. Durante uma gravação, ele parava de repente, aproximava-se do coro, harmonizava a canção com eles, rindo e gracejando, desafiando cada um a subir ou descer mais, tentando acompanhá-los, na maior parte do tempo, quando sua voz se encontrava em plena forma, conseguia fazê-lo. Quando estava fascinado pelo material, adorava as gravações. Gostava de trabalhar como uma equipe — sua voz, o coro e os instrumentos sendo gravados no mesmo volume.
Não queria que sua voz se projetasse sozinha. Gostava do impacto do grupo inteiro. Era o seu som e um som fabuloso, até o dia que o Coronel disse que havia queixas dos fãs e da RCA de que não podiam ouvir Elvis direito. Se era ou não verdade, o fato é que ele sugeriu que a voz de Elvis fosse mais destacada.
Foi uma das poucas ocasiões em que Elvis decidiu enfrentá-lo, declarando:
— Venho cantando assim por toda a minha vida. O que algumas cabeças na RCA sabem sobre música? Cantarei as canções da maneira como as ouço.
O técnico de gravação, no entanto, trabalhava para a RCA e não para Elvis, começando a sufocar o coro.
ELVIS E EU

— O velho está interferindo com as minhas trilhas sonoras — ele queixou-se a Red West e a mim, uma noite, na limusine, a caminho do Memphian. — Não tenho a menor chance. A RCA só escuta a ele. As fãs não vão querer ouvir minha voz na frente. Afinal meu estilo sempre foi outro. Mal podia ser compreendido. E deixava a pessoa com vontade de escutar mais. As canções que são sucesso hoje... mal se consegue ouvir o que estão cantando. O homem deveria ficar com os seus negócios e me deixar cuidar da minha música. Elvis só podia ir até certo ponto na resistência e depois perdia o ânimo. Já tinha de suportar os filmes horríveis e agora, ainda por cima, estavam interferindo com sua música.
O Coronel não tramou intencionalmente para fazer Elvis parecer ruim ou para assumir o controle artístico. Seu único interesse era lançar o produto no mercado, a fim de que o dinheiro entrasse. Mas quando ele começou a cruzar a fronteira das negociações comerciais para o lado artístico, Elvis começou a entrar em declínio lentamente. Eu queria desesperadamente ajudá-lo, mas não sabia como. Em minha inocência, tentava convencê-lo, a argumentar com o Coronel. Mas ele só ficava furioso, dizendo que eu não sabia do que estava falando.
Eu não compreendia sua dificuldade em me revelar suas fraquezas. Só mais tarde é que percebi como era importante para Elvis sempre parecer estar no controle em minha presença. Cada vez que eu enunciava minhas opiniões com bastante firmeza, especialmente se divergiam das suas, ele me lembrava que o seu era o sexo forte e eu, como mulher, devia permanecer em meu lugar. Ele gostava de dizer que a função da mulher era ficar do lado esquerdo do homem, perto do coração, dando-lhe força através de seu apoio.
O papel de Elvis em relação a mim era o de amante e pai; assim, ele não podia baixar a guarda, tornar-se falível ou realmente íntimo. Eu ansiava por isso e, como mulher, também precisava. Havia noites em que o sono era agitado, atormentado por preocupações e medos. Eu deitava em silêncio ao seu lado, angustiada com o que ele poderia estar pensando, especulando se haveria um lugar em sua vida para mim. Perdidos em nossas aflições separadas, éramos incapazes de proporcionar força e apoio um ao outro. Elvis era dominado por sua incapacidade de assumir
responsabilidade por sua própria vida e por fazer concessões em seus padrões... e eu era dominada por ele, fazendo concessões nos meus. Quando as coisas estavam ruins, Elvis ligava para Vernon e conversavam por horas a fio sobre seus problemas. Ele dizia ao pai que estava solitário e deprimido, ninguém o compreendia. Quando eu ouvia tais comentários, encarava-os como algo pessoal, novamente pensando que estava lhe falhando.
Vestia então meu vestido mais bonito, exibia o sorriso mais jovial — e minha personalidade mais falsa — e tentava animá-lo. Quando eu não conseguia arrancá-lo da depressão, ele passava o dia inteiro trancado em seu quarto. O que me deixava arrasada. Com medo de dizer ou fazer a coisa errada, eu reprimia meus verdadeiros sentimentos e acabei desenvolvendo uma úlcera.
Quanto mais as frustrações aumentavam, quanto mais pressão ele sentia, mais os problemas se manifestavam em males físicos. Especificamente para controlar a depressão, ele passou a tomar antidepressivos. Seus enormes talentos criativos estavam sendo desperdiçados e isso era uma coisa que ele não podia suportar.
O Coronel Parker sabia do seu estado, mas tinha um acordo antigo com Elvis de que não se intrometeria em sua vida pessoal. Em vez de confrontar Elvis, ele tentou fazer com que os rapazes o denunciassem. Era uma situação extremamente delicada e os rapazes procuraram se esquivar. O Coronel costumava recrutar Sonny West e Jerry Schilling para levá-lo de carro a Palm Springs e trazê-lo de volta, nos fins de semana. Durante a viagem, ele tentava arrancar-lhes informações. Eles precisavam tomar muito cuidado.
Se dissessem alguma coisa errada, estariam traindo Elvis. Era especialmente difícil para Joe Esposito, que passava muito tempo com o Coronel, já que era uma espécie de capataz do grupo. Quando Elvis começava a cancelar reuniões ou a se comportar de maneira estranha no estúdio, o Coronel indagava:
— O que está acontecendo com Elvis, Joe? Ele parece se encontrar em péssimo estado. Não podemos permitir que o vejam assim.
Joe estava dividido entre suas lealdades ao Coronel e a Elvis. Gostava de Elvis e respeitava os seus desejos, mas compreendia que era o Coronel quem fechava os negócios e tinha de entregar o "produto" ...Elvis. Quando o Coronel atribuiu a Joe a responsabilidade de informá-lo sobre o "estado mental e emocional" de Elvis, um eufemismo para o consumo de drogas, Elvis descobriu e disse:
— Não quero nenhum filho da puta por aqui dizendo ao Coronel o que eu faço ou o que acontece nesta casa.
Ele despediu Joe sumariamente. Perdoou-o seis meses depois e aceitou-o de volta. Era típico de Elvis explodir furiosamente e em seguida perdoar a todos.
Desde a minha chegada a Graceland, comecei a notar uma mudança gradativa na personalidade de Elvis. Nos primeiros dias de nosso relacionamento, ele parecia estar mais no controle de suas emoções. Era um homem capaz de desfrutar a vida ao máximo, especialmente durante os nossos momentos especiais. Adorávamos passear ao final da tarde, pouco antes do escurecer. Geralmente terminávamos na casa de seu pai, assistindo televisão, pai e filho relaxando, fumando charutos e discutindo os problemas do mundo.
Freqüentemente o assunto era a intenção de Vernon de trocar seu carro, um rebuscado Cadillac que Elvis lhe dera de presente, por um Olds 1950, com o qual se sentia mais à vontade. Vernon adorava caminhões e carros antigos, trocando-os a intervalos de poucos meses, deliciado a cada nova transação.
Voltando a pé para casa com Elvis, conversávamos sobre o destino — como nos reunira, como éramos feitos um para o outro, como Deus operava por caminhos estranhos, unindo duas pessoas de partes diferentes do mundo.
Eu adorava quando Elvis conversava assim. Ele tinha planos para nossas vidas, dizendo que estava destinado a viver comigo e não poderia ter qualquer outra. Nesse clima afetuoso, eu descobria que podia me abrir e expressar livremente minhas opiniões. Olho para trás agora e compreendo que nosso romance era dependente dos rumos de sua carreira. Durante
períodos prolongados de não-criatividade, Elvis tinha acessos de fúria freqüentes.
Houve uma ocasião em que examinamos uma pilha de discos de demonstração para um álbum da RCA; sua aversão a cada canção foi se tornando cada vez mais patente.
Antes de um disco chegar ao meio, ele já estava passando para o seguinte, cada vez mais desanimado. Finalmente encontrou uma canção que prendeu sua atenção e perguntou minha opinião. Lembrando aquele primeiro incidente em Las Vegas, senti que nosso relacionamento se desenvolvera a um ponto em que ele queria minha opinião sincera.
— Não gosto muito.
— Como assim?
— Não sei direito... tem alguma coisa que está faltando... um ponto de atração...
Para meu horror, uma cadeira voou pelo ar em minha direção. Consegui me desviar no último instante, mas havia pilhas de discos em cima da cadeira e um deles me atingiu no rosto. Poucos segundos depois Elvis estava me abraçando, pedindo desculpa, freneticamente. Todos diziam que ele herdara seu temperamento explosivo dos pais.
Eu já ouvira história da ocasião em que Gladys tivera um acesso de raiva, pegara uma frigideira e jogara em Vernon. Também já testemunhara as palavras duras de Vernon quando ficava furioso. Essa característica genética era inerente ao temperamento de Elvis. Podia-se sentir a vibração quando ele estava com raiva. A tensão aumentava a um ponto explosivo e ninguém queria estar por perto no momento da erupção. Mas se alguém resolvia se retirar, tornava-se automaticamente o alvo de toda a ira, inclusive eu. Como na ocasião em que ele desceu a escada furioso porque seu terno preto — que usara no dia anterior — fora mandado para a lavanderia.
— Por que ainda não voltou, Cilla? — gritou ele. — Onde está a porra do meu terno?
Ele tinha outros dois ternos idênticos ao que estava na lavanderia, mas queria justamente aquele.
ELVIS E EU

Quando Elvis estava furioso, era como uma trovoada. Ninguém podia contestar suas palavras mordazes; só podíamos esperar que a tempestade passasse. Depois que se acalmava, Elvis pedia desculpas... não dormira o suficiente, dormira demais ou ainda não tomara o seu café naquela manhã. Às vezes ele esbravejava só para firmar um argumento. Se achava que podia nos dar uma lição, ampliava um problema de menor importância a proporções absurdas; e mesmo enquanto estava gritando, podia piscar para alguém próximo. Dez minutos depois ele estava muito bem, deixando-nos aturdidos e esgotados emocionalmente. Havia também ocasiões em que ele nos animava emocionalmente. Era realmente um mestre na arte de manipular as pessoas.
ELVIS E EU
CONTINUA,,,,,,,,,,,